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Homenagem do presidente da Câmara durante a Sessão Solene comemorativa aos 500 Anos da Reforma Luterana


Data: 20/10/2017

Acompanhe a homenagem do presidente da Câmara, Rafael Pfuetzenreiter, durante a Sessão Solene comemorativa aos 500 Anos da Reforma Luterana realizada na terça-feira (17/10).

Mensagem do presidente da Câmara em nome da Casa Legislativa
Quando afixou suas 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, em 31 de Outubro 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero não poderia imaginar que aquele gesto simbolizaria o início de um dos movimentos religiosos mais duradouros da história ocidental. A Reforma está inserida num contexto de amplas mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais que marcavam a ascensão de um novo tempo na Europa. O período compreendido entre os anos de 1450 e 1550 concentraram os eventos delineadores da nova época que chamamos de modernidade: o surgimento da impressão gráfica; o fim da Guerra dos Cem Anos e subsequente formação dos Estados Nacionais soberanos da França e Inglaterra; a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, a Revolução Comercial que libertaria o continente europeu de variadas limitações da sociedade agrária; as Grandes Navegações; a chegada dos europeus à América, que nos séculos seguintes levaria a uma unificação da Terra com a exportação dos valores e do modelo de organização das sociedades europeias; e também marcou o apogeu do Renascimento Cultural, que trazia em seu bojo os ideais do humanismo, da cultura clássica e do individualismo. Havia também um sentimento geral de desorientação: as guerras e epidemias dos séculos XIV e XV trouxeram sobre as consciências uma sensação de culpabilidade que as faziam pensar que o pecado era o responsável pelas desgraças que assistiam. Esse período conheceu uma crença generalizada na feitiçaria, o temor na iminência do juízo final e o pavor do inferno – sentimentos que faziam da morte uma presença vívida no imaginário social, na arte  e projetavam sobre muitas pessoas o desejo de uma autoridade infalível que a Igreja, que estivera envolvida em um grande Cisma e em forte depreciação do sacerdócio, não mais preenchia. Dentro desse contexto, a Reforma iniciada por Lutero refletia muito os anseios de uma sociedade à espera de mudanças e que há séculos via alguns de seus reformadores serem queimados pela Inquisição. Mas os tempos mudaram, a Bíblia já havia sido traduzida para o inglês, mais pessoas aprendiam a ler e queriam interpretá-la. As ideias de Lutero se espalharam muito rapidamente pela Europa e a designação “protestantes” para os seguidores de sua doutrina foi usada pela primeira vez em 1529, quando seis príncipes e catorze cidades protestaram contra um decreto que restabelecia seu exílio do Sacro Império Romano. Lutero imprimiu em sua doutrina muito de suas inquietações pessoais, especialmente seu medo do diabo e a crença na insuficiência humana para obter qualquer favor divino. Contudo, suas diatribes contra a venda de indulgências, o papado e a tradução da Bíblia para o alemão ecoaram fortemente naquele mundo em transformação. Sua ênfase na doutrina da justificação pela fé também se coadunava com o crescente individualismo que incentivava a busca de uma espiritualidade menos dependente do clero e das restrições da Igreja. Contudo, um dos aspectos fulcrais da Reforma é que seu legado excede a tradição religiosa e se liga intimamente a valores que cultivamos no mundo atual: a liberdade de expressão, de crença, associação e até a separação entre religião e governo. Mesmo que os primeiros reformadores não tenham tocado nessas questões e até tenham se distanciado delas, elas se tornaram em longo prazo bandeiras defendidas por intelectuais protestantes que sofriam perseguições religiosas em seus países ou no estrangeiro. Nestes 500 anos da Reforma ainda há muito campo fértil para a reflexão histórica relacionada ao assunto.

 


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